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Tesouros do deserto
Os mais remotos textos sagrados do Judaísmo, encontrados há cinco décadas em cavernas da Palestina, continuam causando polêmica. Conheça a incrível saga dos Manuscritos do Mar Morto
Por Karina Yamamoto

Revista das Religiões  o Mundo da Fé

 

Ilustrações Rogério Borges

Dentro de vasos antigos, escondidos em cavernas na Palestina, foram achados os pergaminhos que deram nova cor aos estudos bíblicos - Ilustrações Rogério Borges

 

 

Até parece roteiro de filme: um pastor encontra, por acaso, escritos antigos em cavernas próximas às ruínas do monastério de Qumran, na Palestina, em 1947. Em seguida, vem a descoberta: os centenas de milhares de fragmentos de pergaminhos de couro e de papiro - alguns deles do tamanho de uma unha - traziam informações valiosas sobre o período que antecedeu a pregação de Jesus nas terras palestinas. Depois, cenas de extorsão, escândalos acadêmicos e especulações alternamse até o final feliz: uma grande contribuição à história das religiões. Esses fragmentos compõem 813 textos redigidos em hebraico, aramaico e grego, constituindo a mais antiga e vasta biblioteca religiosa já descoberta. Ficaram conhecidos como Manuscritos do Mar Morto, uma vez que o esconderijo deles estava às margens daquele lago salobre. Antes de tais registros serem achados, os mais antigos textos em hebraico de que se tinha notícia eram os que compunham o livro de Isaías, achados no Cairo e datados de 895 d.C. Um dos primeiros manuscritos encontrados em Qumran, contudo, também era uma cópia do livro de Isaías. Testes identificaram sua idade em 100 anos a.C. - uma diferença de mais de mil anos para a versão que já era conhecida. Os pergaminhos revelaram uma riqueza na interpretação do Antigo Testamento até então desconhecida. Foram identificadas, por exemplo, diferentes redações dos livros da atual Torá, os cinco primeiros livros da Bíblia cristã - mas nada que prejudicasse a essência dos relatos. "Qumran abriu uma era totalmente nova na história dos textos das Escrituras hebraicas", escreveu um dos maiores estudiosos do assunto, Geza Vermes, professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Além dos textos religiosos, foram encontrados códigos de conduta e manuais que regiam a vida da comunidade que ali vivia. Era uma seita judaica, com cerca de 400 integrantes, que decidiu viver em local afastado de Jerusalém, sob regras rígidas, para se purificar e assim se manter até que chegasse o fim dos tempos. Os documentos, parte da biblioteca desse grupo, foram armazenados em vasos lacrados e escondidos nas cavernas das proximidades. Provavelmente queriam preservá-los da destruição quase certa dos invasores romanos por volta de 70 d.C. Mas os homens de Qumran nunca voltaram às cavernas para recuperar os valiosos pergaminhos. E, por isso, longos séculos de narrativas surpreendentes ficaram em segredo.

 

Ilustrações Rogério Borges

O jovem pastor palestino encontrou por acaso os vasos que continham os documentos. Muitos beduínos fizeram fortuna com eles - Ilustrações Rogério Borges

 

O ACHADO

A maior descoberta arqueológica do século 20 poderia ter virado comida de cabra se não fosse pelo jovem pastor beduíno Muhamed edh-Dhibo. Um de seus animais havia se desgarrado do rebanho. O rapaz resolveu procurá-lo dentro das cavernas do Deserto da Judéia. Jogou uma pedra no interior de uma delas, mas em vez do berro do animal, ouviu um som muito diferente. Ele havia acertado um dos vasos, dentro dos quais estavam escondidos os manuscritos. Curioso, entrou na caverna. Deu de cara com um punhado de pedaços de pele velha, cheia de escritos que ele, analfabeto, não conseguia entender. Mal sabia Muhamed o alvoroço que estava por começar. O jovem levou esse material, sete rolos, para um comerciante com quem sua tribo negociava mantimentos e provisões. Kalil Iskander, mais conhecido como Kando, ficou com eles e, depois de algum tempo, conseguiu vendê-los aos monges sírios de Jerusalém. Kando se tornaria o intermediário mais importante e rico daquela época por conta desse tesouro. Tão logo foram identificados, em 1948, os manuscritos despertaram atenção na comunidade científica. Os beduínos recusavam-se a revelar a localização das 11 grutas e foi necessária a intervenção da Legião Árabe Jordaniana para que os arqueólogos Lancaster Harding e Roland de Vaux conseguissem encontrar a primeira caverna em 1949. Os pesquisadores também tiveram de trabalhar sob a vigilância dos oficiais. Nas duas décadas seguintes, De Vaux estaria na linha de frente das escavações e, depois, da publicação dos textos. Atentos à mobilização, os beduínos cresceram os olhos para fazer mais dinheiro com os manuscritos. Contratados como peões na expedição, eles quase esvaziaram a gruta 4 (que tinha cerca de 570 manuscritos) sob as barbas dos arqueólogos. Pouco a pouco, os pergaminhos foram aparecendo e sendo vendidos a um preço cada vez mais alto. Depois, em 1956, também seriam eles os descobridores da última gruta, a décima primeira, lotada de rolos em bom estado. Para se ter uma idéia, os quatro primeiros manuscritos vendidos por 24 libras em 1947 foram negociados por 250 mil dólares em 1954. Outra novela, digna de ficção, começou na edição dos textos. De Vaux, chefe da expedição e personagem central da trama, restringiu o acesso dos documentos a alguns poucos pesquisadores. Por conta disso, Geza Vermes cunhou uma das frases mais conhecidas nessa história ao dizer que a demora era "o maior escândalo acadêmico do século". As polêmicas só alimentavam teorias conspiratórias, como uma que acusava o Vaticano de censurar informações com medo de perder seus fiéis. Era a "conspiração do silêncio". Tudo indica, porém, que o problema era mais escassez de recursos do que uma intriga política ou religiosa. Em 1991, Emanuel Tov assume a chefia do grupo e abre as portas dos arquivos para toda a comunidade científica. Tem início um novo capítulo que terminaria em 2002, com a edição completa dos pergaminhos do Mar Morto. Mas novos desdobramentos estavam por vir.

OS TEXTOS

Já apareceram muitas respostas, mas as perguntas não param de se multiplicar. Que novidades um estudo mais detalhado poderia trazer? A fé - fosse ela judaica ou cristã - seria abalada? Quem seriam os autores dos pergaminhos? Teriam eles conhecido Jesus? Afinal, os rolos cobriam o período entre o Antigo e o Novo Testamento cristãos - sua datação fica entre 300 a.C. e 70 d.C. Num primeiro momento, achou-se que bastava traduzi-los e uma nova história seria revelada. Afinal, eram os registros mais antigos da Bíblia hebraica. Praticamente todos os textos do Antigo Testamento estavam ali representados, exceção feita ao livro de Ester. Há quem especule - e especulações não faltam quando o assunto são esses pergaminhos - que sua ausência apontaria para o sexismo da comunidade em que os manuscritos eram mantidos. Para o teólogo Rudi Zimmer, da Sociedade Bíblica do Brasil, a resposta é mais simples. "É provável que ele apenas não tenha sido encontrado ainda, ou simplesmente não foi preservado", diz. Do mesmo modo, caiu por terra a teoria de que os pergaminhos eram uma bomba teológica. Não há diferenças de conteúdo entre os rolos das cavernas de Qumran e os textos que conhecemos hoje. O que existem, sim, são variações no estilo narrativo e em algumas interpretações da lei judaica. Esses registros também têm ajudado a esclarecer quais eram as ramificações existentes do Judaísmo no período em que se formou o Cristianismo. "Os textos nos mostram que havia muito mais diversidade no Judaísmo do que nos mostravam os documentos de que dispúnhamos", diz Vicente Dobroruka, coordenador do Projeto de Estudos Judaico-Helenísticos da Universidade de Brasília (leia quadro na página 52). Os rabinos não deixaram que esses textos fossem preservados, a não ser que se enquadrassem na perspectiva deles. Não havia espaço, por exemplo, para um texto que remete às conhecidas bem-aventuranças. Nos pergaminhos de Qumran, elas não têm o mesmo sentido que sua versão cristã. No entanto, a forma literária é a mesma, o que prova que esse modelo já circulava na Palestina antes de Jesus. Segundo o espanhol Florentino Martinez, um dos maiores especialistas no assunto, "os Manuscritos nos fazem conhecer um Judaísmo muito mais rico, variado e pluriforme do que podíamos imaginar pela imagem que refletem os escritos rabínicos". Como não havia apenas textos sagrados, os pergaminhos trouxeram à cena o modo de vida dos habitantes de Qumran, pertencentes a uma seita de regras muito rígidas. O objetivo era estar preparado - leia-se puro de corpo e alma - para o fim dos tempos que estava por vir. O motivo para retirar- se para o deserto era a possibilidade de seguir as leis, o calendário de celebrações e o horóscopo à sua própria maneira e sem se deixar contaminar por aqueles que não compartilhavam suas crenças. É consenso que se tratava de um grupo radical.

 

Ilustrações Rogério Borges

No início, o estudo dos escritos era privilégio de poucos – fato tido por alguns como “o maior escândalo acadêmico do século”  -  Ilustrações Rogério Borges

 

OS AUTORES

"A seita descrita nos Manuscritos do Mar Morto é mais parecida com os essênios que qualquer outra de que temos informação", disse à RELIGIÕES o pesquisador John Collins, da Universidade de Yale. Eram homens, em sua maioria, que dedicavam suas vidas completamente a Deus e ao cumprimento da Lei. Eles acreditavam ser os únicos portadores da correta interpretação das Escrituras Sagradas, revelada ao Mestre da Retidão, o líder que fundou a comunidade no deserto. Os pontos principais de discordância com os outros grupos religiosos, os fariseus e saduceus, eram o calendário, os sacrifícios dos gentios que não seguiam as regras de pureza e a contaminação das cidades. Para eles, não havia como conviver com tamanha transgressão. O jeito foi isolar-se às margens do Mar Morto.

No silêncio do deserto, encontrariam tranqüilidade para viver o ideal da "nova aliança". Faziam da partilha sua rotina. Não havia propriedade privada, pois ao ser aceitos na comunidade, todos se despojavam de seus bens. Dedicavam boa parte de seu tempo ao estudo das Escrituras, copiando os textos sagrados (leia mais sobre os essênios na edição 9). No entanto, essa versão da história parece absurda para o professor Norman Golb, do Instituto de Estudos Orientais de Chicago. Ele defende que as coleções encontradas nas cavernas vieram de uma biblioteca de Jerusalém e foram escondidas por judeus em fuga do massacre romano. "São textos que vieram de diferentes grupos e não apenas de uma única seita", disse Golb à RELIGIÕES. Para ele, as descobertas de jóias e artefatos de valor no sítio de Qumran pelos arqueólogos Yuval Peleg e Itzhak Magen revelam que os moradores das ruínas não seriam desapegados como provavelmente fossem os essênios. A arqueóloga israelense Katharina Galor, que trabalha há mais de cinco anos nas ruínas de Qumran, prefere ser mais cautelosa. Ela acha que não se pode confirmar - nem negar - a etnia ou a afiliação religiosa dos autores dos manuscritos. "O que podemos dizer é que eles não se mantinham tão isolados quanto pensávamos", afirma. "Os achados arqueológicos nos mostram que eles viviam em edificações semelhantes às de seus contemporâneos e comiam no mesmo tipo de prato." A questão continua, portanto, em aberto. E, claro, sujeita a novas polêmicas. No entanto, o fato de os autores dos Manuscritos do Mar Morto serem essênios ou não em nada afeta a importância da descoberta dos pergaminhos ou seu valor histórico, religioso e arqueológico.

Os judeus daquela época

O historiador Ivan Esperança Rocha, da Universidade Estadual de São Paulo, em Assis, com base nos registros de Flavio Josefo, historiador judeu do século 1 d.C., explica como eram as diferentes correntes religiosas que dividiam a cena na Palestina do período entre 175 a.C. e 70 d.C.: Essênios: grupo pequeno, conhecido pela hospitalidade entre os membros da comunidade. Foram, talvez, os únicos judeus a adotar o celibato. Eram adeptos do vegetarianismo e da vida comunitária e praticavam rituais de purificação. Acreditavam em reencarnação. No monastério de Qumran, calcula-se que viviam 400 deles. Fariseus: eram a maioria dos judeus na época e também os mais influentes na vida social e política. Tinham apego exagerado a regras e eram detalhistas na interpretação e cumprimento da lei judaica. Acreditavam na imortalidade da alma. Mais preocupados com a fidelidade à Torá do que aos sistemas de governo, eram os mais afinados com os invasores romanos. Foi nesse grupo que se originou a tradição rabínica. Saduceus: o nome desse grupo remete muito provavelmente a Zadoc, o primeiro da linhagem dos sacerdotes judeus, sendo muito ligados a essa classe social. Representavam a camada aristocrática, os donos dos meios de produção. Eram mais tradicionais na interpretação da Lei. Não acreditavam em destino como os fariseus e essênios, mas no fato de que a escolha entre o bem e o mal está nas mãos dos homens, ou seja, em livre-arbítrio. Quarta Filosofia: é representada pelos zelotes e sicários, segundo as referências de Flavio Josefo. Eram um grupo de rebeldes camponeses que se opunha, por meio da luta armada, ao domínio estrangeiro na Palestina.

A biblioteca da seita de Qumran

À exceção do livro de Ester, toda a Torá foi identificada entre os rolos achados no Deserto da Judéia, na Palestina. Alguns dos textos coincidiam espantosamente com os atuais, caso do livro de Isaías. Nele, percebe- se a fidelidade com que os escribas trabalharam durante os dois mil anos que separam a idade dos rolos em relação aos manuscritos medievais mais antigos. Há situações, porém, em que os originais do Mar Morto não espelham as versões atuais dos textos em hebraico. "São uma prova a mais tanto do pluralismo textual da Bíblia quanto do pluralismo sociorreligioso do Judaísmo", diz Julio Barrera, do Comitê Internacional de Edição dos Manuscritos do Mar Morto. Entre os escritos não-religiosos, o Preceito da Comunidade e o Preceito de Damasco são os textos mais característicos da seita e trazem pistas de como viviam os habitantes de Qumran. São um conjunto das normas práticas e de conduta moral daqueles que aderiram à "nova aliança". Descrevem a organização da comunidade, trazem passagens de caráter sagrado e também enumeram as faltas e suas respectivas punições. Incluem repreensão até pelos motivos mais simples, como "deixar de cuidar de um companheiro e falar tolamente". Para estas, por exemplo, três meses de expiação. Há um outro escrito importante, intitulado Calendário. Graças a ele, é possível saber que os essênios acreditavam que seus cálculos eram os únicos que estavam de acordo com a Lei e que todo o resto da comunidade judaica não comemorava nem resguardava as datas certas. Essa divergência, porém, levou a um ataque ao grupo essênio, sem que eles tivessem a possibilidade de defender-se. Nesse episódio, o Mestre da Retidão, o fundador da seita, foi assassinado.  

 

Partilha

Livros

Os Manuscritos do Mar Morto, de Geza Vermes. Mercuryo, 1997 Os Homens de Qumran, de Florentino Garcia Martinez. Vozes, 1996 Quem escreveu os Manuscritos do Mar Morto?, de Norman Golb. Imago, 1996 .

Publicado anteriormente na Revista  das Religiões o Mundo da Fé . Editora Abril .

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